O TEXTO É GRANDE MESMO, ESTOU MUITO ESCRITORA DE TEXTÃO SIM!

Você sabem que eu não problematizo tudo, Brasil tá em crise e eu tenho que trabalhar pra pagar minha Mary Kay e meu Netflix, porém esse episódio da estampa da Maria Filó me fez pensar sabe? Eu sei que a gente tá vivendo numa época bem complicada e chatinha com a geração tombamento, os defensores da classe operária que tem Iphone e passam férias em Ibiza, empreendedores de palco, ativistas de sofá, intelectuais de textão no facebook (me?), problematizadores a rodo e os famigerados mimizentos.

A gente realmente tá vivendo numa geração de muito barulho por nada. Mas esse caso da estampa da Maria Filó me fez pensar de verdade. É muito difícil, eu diria até impossível falar de racismo quando você não é negro, e quando eu digo negro, é negro mesmo, não tô falando da grande fatia mestiça da população que, como eu, se identifica como pardo ou até “não branco”, das morenas ou mulatas, tô falando da pessoa negra com pele escura e com o cabelo crespo, nariz largo, lábios grossos e demais variações: NEGRO.

Eu vou te falar que eu, mesmo sendo uma “não branca”, nunca sofri racismo, nunca mesmo. Já penei muito na vida por causa do meu peso, da minha maneira de vestir, mas nunca por causa da minha cor. Eu sinto que é essa referência que muita gente usa pra falar que racismo não existe ou que é mimimi e que as pessoas estão problematizando. Mas é o seguinte: se você não é negro, por mais que você tenha boa vontade, NÃO, você não entende o que é racismo, não mesmo, nem eu e nem você. A gente não tem condição de saber 100% como uma pessoa negra se sente na vida.


A única vez que eu cheguei perto de entender o sentimento que pode envolver uma pessoa negra por toda a vida foi quando eu vi o filme 12 anos de escravidão, cara aquele filme mexeu comigo, talvez pelo fato de a maioria das produções que retratam a época de escravidão deixar a gente tão hipnotizada com os vestidos e penteados das sinhás e até com personagens negros vestidos como os brancos dominantes, que a gente não consegue parar pra pensar em como a escravidão representa algo tão cruel, esse filme é mais realista e realmente tem o foco na situação dos escravos: eles eram nada, eram menos que nada, estavam abaixo dos animais, abaixo até de objetos, pois se você pensar bem as pessoas cuidam bem de seus objetos para que eles não sejam danificados, mas um escravo era menos do que uma escova de cabelo.

Seres humanos eram tratados da forma mais degradante possível, viviam em situação de extrema pobreza, não tinham acesso à higiene, à comida de qualidade. O que mais me chocou quando parei para pensar nesse período da história foi perceber uma pessoa vivendo sem ter nada que fosse dela, sem ter roupas que fossem suas, sem ter direito a tomar banho, nem seu corpo lhe pertencia, é um negócio que mata a gente, pensar que pessoas foram obrigadas a viver dessa maneira.



Princesa Isabel aboliu a escravidão, passou um tempão, a galera seguiu com a vida e tudo bem... Mas aí que vem a parte do episódio da estampa da Maria Filó: no Brasil as pessoas negras já crescem sendo lembradas, de que elas vieram dos escravos, que elas nem estão aqui por vontade própria dos seus antepassados, diferente dos descendentes de Italianos, Judeus ou Japoneses, o povo deles foi simplesmente arrancado de casa e jogado aqui. Não tô dizendo que as pessoas negras são coitadinhas e dignas de pena, esse passado imundo não determina o que uma pessoa negra deve ser hoje, mas para pra pensar no peso disso durante a vida. Além disso, as pessoas negras já tiveram que conviver enquanto cresciam com uma sociedade que dizia que o cabelo delas estava errado, que a pele delas estava errada, que o formato do nariz delas estava errado e no caso das mulheres com a hipersexualização de seus corpos.

Claro que hoje em dia já há um movimento pela representatividade das pessoas negras, presidente americano negro, princesa da Disney negra, protagonista da novela das 8 negra e até vencedora do oscar negra, olha que avanço! Mas será que isso já é o bastante? Além do mais, hoje nós temos uma questão bem séria também sobre quem é considerado negro, pois é muito fácil dizer que a moça com a pele cor de chocolate e cabelo bem cacheado é uma negra linda, mas ignorar totalmente a garota com a pele super escura e com o cabelo crespo. Temos a glamourização da mulata como negra autêntica e uma crise de identidade sobre a “negra ideal”.


Voltemos a falar da famigerada estampa da Maria Filó, tenta imaginar como é cruel pra um povo que há menos de 200 anos era tratado feito lixo, que por “benevolência de uma princesa” teve a permissão de viver em sociedade, hoje em dia acorda de manhã, estuda, trabalha, constitui família, vive por aí e quando vai comprar uma porcaria de uma blusa numa loja vê uma mulher negra servindo uma sinhá branca numa droga de uma estampa e percebe que um dos períodos mais vergonhosos da história é encarado como “arte” ou “artigo de moda”! É como se um judeu comprasse uma blusa com uma estampa do holocausto!

Eu nunca vou entender 100% como uma pessoa negra se sente em relação ao racismo, mas eu sei que quando eu estava na faculdade não dava pra contar 5 pessoas negras nas turmas que eu frequentava, eu sei que eu cresci vendo colegas negras na escola sendo chamadas de cabelo de ninho de rato e que eu nunca vou compreender o que esse estigma da escravidão, do racismo significa de verdade.

Tá bem complicado hoje em dia separar o mimimi e a problematização gratuita das coisas que realmente precisam ser discutidas, mas simplesmente julgar como arte um troço tão feio da nossa história é algo a se pensar. Classificar como racismo não é algo que caiba a mim, mas que essa história toda é uma tremenda de uma falta de noção, isso é.

A tal estampa foi inspirada na obra do pintor francês Jean-Baptiste Debret, todo mundo conhece as pinturas dele, retratam mesmo esse período da escravidão e estão nos livros de história e na abertura da novela Escrava Isaura que a Record fez em 2004. A gente entende que o cara retratou o cotidiano da época e até reconhece a importância histórica de retratar esse período até para se ter alguma noção de como aquilo tudo ocorreu, mas gente, pelo amor de Deus, ESTAMPA DE BLUSA? SÉRIO?

Vamos à um exercício: tenta imaginar que essa estampa da Maria Filó seria como se alguém pegasse a pior parte da sua vida, uma parte que você quer esquecer, ou que te magoou demais, transformasse isso em “arte” e um tempo depois uma marca de roupa achasse o desenho bonitinho e colocasse numa camiseta. Então: é a mesma coisa.

E para a Maria Filó, apenas melhorem. Close erradíssimo.

Entenda a polêmica AQUI.

(...) Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Mateus 18:3

Eu sou aquela garotinha magrela que ficava sentada no fundo da sala chorando e querendo a  mãe, que era zoada por ser magra demais e que chorava por tudo, que era surpreendentemente quieta e que falava pouco.

Eu sou aquela garotinha que demorava a se encaixar, que amava as aulas de educação artística pois adorava desenhar, pintar e criar coisas. A garotinha que teve que estudar em 6 colégios diferentes e se mudar 13 vezes acompanhando os pais missionários.


Eu sou aquela garotinha que andou de elefante no circo do Beto Carreiro, que adorava visitar museus e contava os dias para a próxima bienal do livro, que gostava de fazer pokémons de massinha, fazer cidades de papel e brincar na quinta da boa vista.


Eu sou aquela garotinha que cortou a franja no colégio e chegou em casa parecendo que tinha um bumbum de pombo na cabeça e que caiu de cara no chão na escola e machucou os lábios, ficando um bom tempo com um “bigode” de casquinha de ferida. Aquela garotinha cheia de cachinhos que gostava de imitar a Eliana.



Eu sou aquela garotinha que quando crescesse queria ser deputada, mas que depois descobriu o que os deputados faziam decidiu ser Advogada. A garotinha que sofreu bullying por ser magra demais, por ser gordinha demais, por ser muito quieta, por ser muito faladeira e por ser evangélica (pois é).


Eu sou aquela garotinha que em uma lição de humildade dada pelo pai, em um certo Natal escolheu a melhor boneca da loja acreditando que seria um presente para uma outra menina que não tinha nenhum brinquedo e que depois ficou um pouco decepcionada quando descobriu que a boneca na verdade era pra ela mesma, pois ela realmente gostaria de ver a alegria de outra pessoa.


Eu sou aquela garotinha que ficava brincando embaixo da mesa de trabalho da mãe, que no retiro de carnaval da igreja ao invés de ficar brincando com as outras crianças preferia ficar jogando sinuca com o pai. A garotinha que viajava com os pais missionários e que aprendeu que o mundo não é um lugar justo para todos.



Eu sou a garotinha que depois que se adaptava nunca permitia que alguém se sentisse excluído, que odiava competição plantada e ver pessoas oprimindo outras. Aquela garotinha que sempre perdoava tudo o que faziam com ela e que tentava compreender à todos, mesmo aqueles que queriam seu mal.


Eu sou aquela garotinha comum e especial ao mesmo tempo, sem mimimi, e sem papo de criança índigo superior, eu era aquela garotinha com suas peculiaridades e normalidades, uma criança feliz, criada pelos melhores pais do mundo. Eu sou aquela garotinha que aprendeu a importância de sempre ajudar os outros, a não se sentir melhor do que ninguém e a rejeitar a falsa humildade.

Eu ainda sou aquela garotinha, que passou por alegrias e tristezas que se alegrou e que infelizmente se decepcionou com muita coisa e com muita gente, mas que não deixou que ninguém apagasse a sua essência e que mesmo sabendo que quem é luz incomoda quem é das trevas, não vai deixar que ninguém a apague.

Posso não estar nos meus melhores dias, mas tenho orgulho da criança que fui e da adulta que me tornei, me orgulho de nunca ter sido falsa e mesquinha e, acima de tudo, me orgulho de nunca, em hipótese alguma querer o mal de alguém.


O mal do mundo não vai me mudar!

Aquela garotinha sou EU!

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