Preciso falar de um amor que não é meu

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Hoje vou falar de uma história de amor. De um amor que não é meu. De uma história que não é minha, afinal nunca amei ou fui amada (nada contra, só não é pra mim). Uma história de amor da qual eu só assisti o triste fim, mas que o desenrolar eu consegui montar como um quebra-cabeça pelas partes que me foram contadas pelos amigos e conhecidos do desafortunado casal.

Eram dois Jovens, inteligentes, bonitos e com um futuro brilhante traçado, tanto ele quanto ela altos funcionários de uma poderosa estatal que hoje não é mais tão poderosa assim, parece até que ela pereceu junto com a história deles.

Eles eram noivos, ricos, com o casamento planejado, tudo com muito luxo, o céu era o limite, no entanto dentre os muitos traços de personalidade que tinham em comum, um se mostrou como a ruína de suas vidas: a teimosia.

A mãe dele não aprovava a noiva, por motivos que eu até hoje desconheço, o fato é que a futura sogra deu um ultimato, mandou que o filho escolhesse entre a mãe e a noiva, quem poderia condená-lo pela sua escolha? A mulher que ama ou a mãe que ama? Às vezes eu penso que de um jeito ou de outro ele sempre teria feito a escolha errada, sendo ela qual fosse. O Jovem escolheu a mãe, desfez o noivado, deixou a noiva arrasada, ela nunca mais foi a mesma, nem ele.

Ele cuidou da mãe até o leito de morte, nunca saiu do seu lado, depois da morte da mãe tentou reatar sua história com a ex-noiva sem sucesso: ela se sentiu magoada, rejeitada, com seus sonhos despedaçados, ela me disse isso.

No entanto eles continuaram amigos, continuaram unidos ao longo dos anos, sempre senti que alguma coisa os unia, uma daquelas forças espirituais que não conseguimos enxergar, tanto ele quanto ela nunca se casaram, nem tiveram filhos, nunca se prenderam a ninguém, mas sempre estiveram presos um ao outro. Na estatal na qual trabalharam durante muitos anos ganhavam altos salários, mas todo esse dinheiro era o mesmo que nada, nunca viajavam, nunca iam a lugares novos, os dois viviam sempre na mesmice ao longo da vida.

Conheci os dois já na velhice de ambos, meu pai prestou serviços para eles como administrador, acabei participando de algumas reuniões com aquele simpático casal de idosos, pensei eu na primeira vez que os vi, para logo depois eles me dizerem que eram apenas bons amigos.

Era bonito e melancólico vê-los, o rosto envelhecido dele olhando para ela com amor, com culpa, com remorso e os olhos dela, já fracos lançando de volta um olhar de amor e dor. Eu sinto que eles sempre se amaram.

Ela até tentou, já idosa, dar chance para um novo amor, um homem mais jovem, que infelizmente apenas se beneficiou de sua pomposa aposentadoria, a cada desfalque que ela levava, lá estava ele, para ampará-la para ajudá-la em seus problemas financeiros. Depois fiquei sabendo que suas cuidadoras eram pagas por ele e que sempre um de seus carros era deixado à disposição dela para o que quisesse.

Assim, nos poucos anos em que convivi com ambos, os vi envelhecendo cada vez mais e mais, cheguei a pensar algumas vezes se não seria melhor que eles aproveitassem o resto da velhice juntos, usassem seu dinheiro para viajar, descansar, usufruir um pouco da vida, mas nada disso, os erros do passado os consumiam, ela já cansada da idade vivia seus dias de forma pacata em seu apartamento, ele, mesmo aposentado continuou a trabalhar.

Ela tinha muita dificuldade de se locomover e era muito orgulhosa, gostava de andar na rua sem ser amparada por ninguém. Um dia levou um tombo e bateu a cabeça, o Alzheimer que já dava seus primeiros sinais piorou de forma drástica, ela passou a não reconhecer mais as pessoas: se esqueceu de mim, se esqueceu dele, se esqueceu de todo mundo, de tudo.

Algo morreu nele naquele dia, ele já se arrastava pela vida, a essa altura era difícil acreditar que ainda resistia sob seus pés, mas com a postura totalmente curvada, ele a visitava sempre, até que um dia durante o almoço, no mesmo restaurante de todos os dias ele morreu engasgado com uma azeitona, chegaram a pensar que era infarto, fizeram massagem cardíaca, o que piorou a situação, ele morreu assim, dessa forma.

Essa semana liguei para perguntar dela, a empregada contou, que “ela se comporta como uma criança” e talvez nem saiba que ele morreu.

A história deles acabou assim e eu nem sei se disso tudo há uma lição de moral para compartilhar com vocês, apenas senti a vontade de narrar a história que acompanhei já em seu desfecho, seu desfecho triste.

Daquelas duas pessoas que poderiam ter vivido uma linda história de amor sobraram apenas os bens, ela está interditada e tem seu patrimônio administrado por uma sobrinha, a herança dele coube há um primo que apareceu apenas depois de sua morte.

Eu sinceramente espero que, de alguma forma eles possam se encontrar outra vez, queria poder ter feito mais ao invés de só ouvir e assistir a tudo, mas o que eu posso fazer? A história era deles e não minha, o amor era deles e não meu.

O que acaba comigo é saber que eles não foram felizes.

De: Carol

Para: W. e A.



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